SCHRÖDER E PINK FLOYD: NÃO SEJA APENAS MAIS UM UMA PEDRA
Há músicas que ultrapassam o tempo porque não são apenas músicas. São perguntas.
Em 1979, o Pink Floyd lançou Another Brick in the Wall (Part 2), uma obra que se tornou símbolo de contestação a um modelo educacional rígido, padronizado, repetitivo, autoritário e desumanizador. A frase que ecoa na canção — “We don't need no education” — não deve ser entendida simplesmente como uma rejeição ao conhecimento ou à educação.
Seria um equívoco interpretar a mensagem de Pink Floyd como uma defesa da ignorância, pois é inequívoco o conflito entre uma educação que mantém o homem (irmão) livre e uma educação que domestica, padroniza e transforma os maçons em peças de uma engrenagem. Na perspectiva maçônica e principalmente no Rito Schröder há que se ponderar a liberdade de consciência, o aperfeiçoamento, o pensamento crítico e a construção do próprio templo interior.
É oportuno lembrarmos que a primeira tarefa do Aprendiz é “aprender a pensar” (Ritual fls.74).
Talvez o maior problema da educação maçônica não seja aquilo que ela ensina. Seja aquilo que, muitas vezes, nos impede de perguntar.
Desde cedo, aprendemos a repetir.
Repetir o ritual.
Repetir respostas.
Repetir perguntas.
Repetir comportamentos.
Repetir ideias.
E, pouco a pouco, podemos nos transformar naquilo que o sistema ou alguns mais facilmente administra: mais um tijolo/mais uma pedra no “muro”. (Pink Floyd), apenas mais um na Maçonaria, repetindo e dizendo o de sempre.
Um tijolo não questiona a parede.
Apenas ocupa o espaço que lhe foi destinado.
A verdadeira Maçonaria, porém, começa exatamente no ponto em que o homem deixa de aceitar sua forma como definitiva, quando rejeita ser apenas mais um tijolo (pedra)
Somos apresentados à Pedra Bruta.
E isso é muito mais revolucionário do que parece.
A pedra não vem pronta.
Não possui formato definitivo.
Precisa ser trabalhada.
Mas existe uma diferença fundamental: ninguém deveria trabalhar a nossa pedra por nós.
Pensar é desbastar.
Questionar é desbastar.
Estudar é desbastar.
Mudar de opinião quando encontramos uma verdade melhor também é desbastar.
O verdadeiro perigo não está em não saber. Está em acreditar que já sabemos tudo.
O mundo e a maçonaria estão entrando em uma era em que máquinas poderão responder quase todas as perguntas.
A inteligência artificial poderá produzir textos, imagens, cálculos, diagnósticos e decisões em uma velocidade inimaginável.
Mas existe algo que nenhuma máquina poderá fazer por nós: decidir quem queremos ser: pedra ou pedra: “Tu Es Petrus Et super hanc petram ædificabo ecclesiam meam”.
Por isso, a maçonaria do futuro não deveria produzir homens que saibam apenas obedecer.
Deveria produzir homens capazes de pensar.
A Maçonaria talvez tenha aqui uma missão extraordinariamente atual:
formar homens que não sejam pedras ou tijolos de uma parede, mas pedras conscientes de uma construção.
Porque o futuro não pertence necessariamente aos que sabem mais.
Pertence aos que conseguem pensar melhor, questionar melhor e escolher melhor.
E talvez o verdadeiro homem livre seja aquele que, diante de uma parede, de um muro e de uma construção não pergunta:
“Onde devo me encaixar?”
Mas pergunta:
“Por que essa parede existe? ou por que essa construção existe?
Que tipo de educação estamos oferecendo ao “aprendiz”?
Existe uma educação que liberta.
E existe uma educação que aprisiona.
A primeira desperta perguntas.
A segunda oferece respostas prontas.
A primeira estimula a consciência.
A segunda exige conformidade.
A primeira ensina o aprendiz a caminhar com as próprias pernas.
A segunda determina para onde ele deve caminhar.
O conhecimento, por si só, não garante liberdade.
Um homem (maçom) pode possuir inúmeros diplomas, graus, cargo e continuar sendo escravo de preconceitos, dogmas, vaidades, interesses e opiniões alheias.
Pode conhecer muitas respostas sem jamais ter aprendido a formular uma pergunta.
Pode repetir milhares de informações sem ter desenvolvido discernimento.
Por isso, talvez uma das maiores tarefas da verdadeira educação maçônica seja justamente ensinar o homem/ o aprendiz/ a pedra a pensar por si mesmo.
Sócrates e Platão optaram por ensinar as pessoas a pensarem por si mesmas através da Maiêutica (o método de fazer perguntas), Sócrates não dava respostas, mas ajudava o interlocutor a "parir" suas próprias ideias, eliminando preconceitos e ilusões. Por sua vez, René Descartes no livro Discurso do Método, resumiu sua busca por verdades incontestáveis com a famosa frase: "Penso, logo existo".
Talvez, Schröder tenha influenciado a Edward de Bono (1933–2021) médico, psicólogo e filósofo maltês que revolucionou a forma como entendemos a mente humana no ambiente prático, sua grande premissa era simples, mas provocativa: o pensamento é uma habilidade que pode ser treinada.
Na Grécia e na Idade Média, o aprendizado do pensamento era dividido no Trivium ("as três vias"):
Lógica (Como pensar): A arte de construir raciocínios válidos sem cair em contradições.
Gramática (Como estruturar): A capacidade de definir conceitos com precisão e usar a linguagem para dar forma às ideias.
Retórica (Como expressar): A habilidade de transmitir o pensamento de forma persuasiva e clara.
Certamente, os mais puritanos irão dizer: “isso não está no Ritual”, “não tem isso em nosso Rito” e não porque pensaram, apenas repetiram.
Termino lembrando a obra A Arte de Escrever, nela Schopenhauer faz uma distinção ácida entre os "eruditos" (que apenas acumulam a leitura do pensamento alheio) e os "pensadores autônomos" (que usam a leitura apenas como faísca para construir seu próprio raciocínio).
Pensem, não concordem comigo, posso estar errado!
OBS.: Texto sem revisão.
Joinville (SC), 30 de setembro de 2026.
C.A.M. e T∴F∴A∴
Ir.´. Marcelo Artilheiro




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